Porque é que precisamos de um Porto com Pernas?
A crise climática que começou no século XX(1) tem-se vindo a agravar exponencialmente e a afetar cada vez mais populações à volta do Mundo. Alguns exemplos de desastres ambientais que aconteceram recentemente na Europa são:
- A seca do Verão de 2022 levou especialistas a avisar que a escassez de água será o “novo normal”. Nesse Verão, 100 municipalidades Francesas não tiveram acesso a água potável. As reservas de água Espanholas atingiram o nível baixo de sempre, 40%. (3)
- Em 2022, fogos selvagens causaram três vezes mais destruição do que a média de 2006-2021.(4)
- A temperatura no Reino Unido ultrapassou os 40°C no Verão de 2022. O aumento da temperatura máxima nas décadas anteriores tinha acontecida em pequenas margens, neste ano o salto foi de 2°C.(5)
- Em 2021, cheias no norte da Alemanha e Bélgica causaram mais de 220 mortes. A probabilidade destas cheias acontecerem aumentou nove vezes devido à crise climática.(6)
- Morreram em Portugal 2,121 pessoas entre 1980 e 2020 devido à crise climática. Na Europa, esse número é 142,101.(7)

Uma reflexão interessante no The New York Times menciona que ao falar sobre um “novo normal” o jornalista foi corrigido por especialistas. Estes explicam que ao usar esse termo dá a falsa impressão de que atingimos um plateau.
“Isto vai piorar muitíssimo.” diz o diretor do Institute at Brown for Environment and Society. No último século, já emitimos muito acima de um nível sustentável. Essas emissões já se encontram na atmosfera a causar continuamente o aquecimento global e eventos climáticos extremos. Estas emissões antigas e todas as que estamos a emitir de momento e planeamos emitir no futuro, conduzirão a cada vez mais desastres ambientais.(8)
Além do aumento exponencial do número destes desastres, a sua complexidade em serem geridos e resolvidos também se intensifica. Esta complexidade será resultado de 1) vários eventos climáticos acontecerem simultaneamente, 2) os riscos climáticos e não-climáticos interagirem, 3) algumas respostas à crise ambiental atualmente planeadas resultarem em novos riscos e consequências climáticas.(9)

Os especialistas usam três cenários para discutir o futuro da crise climática: os cenário de 1,5°C, 2°C, e 3°C. É importante perceber que os nomes destes cenários não correspondem simplesmente “a um pequeno aumento de temperatura” mas muito mais do que isso!
Por exemplo, no cenário de 1,5°C, os extremos de dias de calor em latitudes médias aquecem cerca de 3°C. No cenário de 2°C, a variação passa a ser cerca de 4°C. Garantir o cenário de 1,5°C em vez do de 2°C (portanto “só 0.5°C de diferença”) significaria que 10 milhões de pessoas não perderiam as suas casas devido à subida do nível do mar, que as mortes prematuras em zonas urbanas no Verão diminuiriam 15-22% e que 50% menos pessoas sofreriam de escassez de água, entre prevenir ou mitigar outras catástrofes.

O Intergovernmental Panel on Climate Change, projecta impactos gravemente negativos para as regiões do Sul Europeu. Abaixo listamos algumas das consequências climáticas que iremos enfrentar na Europa nos próximos anos.
Relativamente ao calor:
- No cenário de 1,5°C prevê-se 30.000 mortes anuais devido ao calor extremo, aumentando triplamente no cenário de 3°C. Estas consequências serão mais graves e iminentes no Sul Europeu e nas zonas urbanas.
- No Verão, as horas de conforto térmico irão diminuir até 74% no Sul Europeu no cenário de 3°C.
- Os habitantes das zonas urbanas estão mais vulneráveis aos riscos climáticos, pois a infraestrutura urbana cria microclimas que exacerbam o efeito das ondas de calor.
- Haverá escassez de alimentos, devido ao aumento do calor e seca. As perdas de produção agrícola projetadas para o Sul Europeu não serão compensadas por ganhos no Norte da Europa.
Relativamente à água:
- No Sul Europeu, mais de um terço da população sofrerá por escassez de água no cenário de 2°C. Este risco duplica no cenário de 3°C.
- Os estragos resultantes de inundações costeiras irão aumentar dez vezes antes do final do século XXI, com os atuais planos de mitigação.
Relativamente ao ar:
- O aumento de fogos selvagens na Europa irá piorar a qualidade do ar na região e aumentar o número de mortes por razões respiratórias. Como exemplo, já em 2017 mais de 100 pessoas morreram prematuramente em Portugal como resultado da má qualidade do ar durante os fogos desse ano.
- O aumento de cheias e chuvas intensas poderá piorar a qualidade do ar no interior de casas e edifícios devido à humidade e bolor, impactando negativamente a saúde da população através de alergias, asma, e rinite. Por sua vez, esta fatia da população estará mais vulnerável a outros riscos climáticos.
Outros pontos a considerar:
- As faixas etárias mais elevadas estão mais vulneráveis aos riscos climáticos, o que se torna ainda mais preocupante tendo em conta o envelhecimento projetado da população Europeia.
- Os sistemas de saúde sofreram dificuldades de adaptação para poderem apoiar a população que sofrerá estes riscos, particularmente no Sul da Europa, onde estes estão sob pressão.

Segundo a comunidade científica, apesar de adaptação estar a acontecer na Europa, não está a acontecer à escala e ritmo necessários. As principais barreiras são a limitação de recursos, falta de participação do sector privado e dos cidadãos, mobilização financeira insuficiente, falta de liderança política e falta de sentido de urgência.(11) De acordo com as Nações Unidas (NU), em 2015 a possibilidade de ultrapassarmos o cenário de 1,5°C era praticamente nula. Entre 2022 e 2026, este cenário é considerado quase 50% provável.(12) E apesar da queda em emissões em 2020, estas continuam a aumentar ano após ano, tornando os riscos descritos acima cada vez mais prováveis.(13)
Os veículos rodoviários tem uma enorme responsabilidade nesta situação. O sector de transporte rodoviário emitiu um quinto das emissões totais da União Europeia em 2019, sendo os automóveis de longe os maiores polutores do sector dos transportes em geral.
E também a quantidade de emissões continua a crescer. A NU constata que este é o sector de utilizador-final que consistentemente mais aumentou o número de emissões desde 2010 e prevê que esta situação se agrave nas próximas décadas, em particular na Europa e América do Norte.
As emissões do sector de transportes podem crescer 65% até 2050 se não houver acção imediata. Mas se agirmos agora, podemos reduzir com confiança até 68% as emissões atuais, diz a NU.(15) As recomendações da União Europeia passam pelo aumento da partilha de veículos e a mudança rápida para transportes públicos, andar de bicicleta e a pé.(16) E é também isto que te propomos com a nossa iniciativa, de forma estruturada e inclusiva.
No entanto os carros não são apenas nocivos na questão climática, mas também para a a nossa saúde. A poluição atmosférica é responsável por mais de 1 milhão de mortes em zonas urbanas por ano.(17) Os veículos motorizados privados são um dos principais contribuintes para a poluição, produzindo quantidades significativas de óxidos de azoto, monóxido de carbono e entre outros gases. Em 2013, os transportes foram responsáveis por mais de 50% do monóxido de carbono e dos óxidos de azoto e de quase 25% dos hidrocarbonetos emitidos para o nosso ar.(18) E como vemos nos dados partilhados anteriormente, estes números continuam a aumentar.
Esta poluição é particularmente nociva para os passageiros dos carros, incluindo crianças. Segundo o The Guardian, várias estudos concluem que os condutores de carros estão expostos a níveis de poluição atmosférica muito mais elevados do que os pedestres ou condutores de bicicleta nos mesmos trajetos. O diretor da “Smith School of Enterprise and the Environment” em Oxford, David King, explica que "as crianças sentadas no banco de trás dos carros estão propensas à exposição a níveis perigosos [de poluição atmosférica]. Pode estar a conduzir um veículo mais limpo, mas os seus filhos estão sentados numa caixa que recolhe gases tóxicos de todos os veículos à sua volta” e afirma “O melhor para a saúde de todos nós é deixarmos os nossos carros para trás”. As crianças são grupos vulneráveis dentro de carros, pois a poluição do ar pode atrasar o crescimento dos seus pulmões e aumenta o risco de sensibilização, o que consequentemente causa doenças respiratórias como a asma.(19)
Os carros causam também muitos danos diretos através de acidentes rodoviários. E estes são particularmente comuns nas cidades: como vemos no gráfico abaixo da Comissão Europeia, 57% dos acidentes em Portugal acontecem em zonas urbanas.

Estima-se que morreram 688 pessoas em 2019 em acidentes de viação registados em Portugal. Este é um número elevado, colocando o nosso país no 6.º lugar entre os 27 países da UE em termos da quantidade de vítimas mortais per capita.(20) Um estudo colocou o fluxo de tráfego como a terceira maior causa de acidentes rodoviários, apenas ultrapassada pela condução ilegal e pelas condições meteorológicas.(21) Por último, os veículos ligeiros destacam-se como o tipo de agente rodoviário mais envolvido tanto em acidentes mortais como em acidentes com feridos graves em Portugal, como demonstra o gráfico abaixo. Pelo que reduzir o número de carros nas nossas ruas levaria a uma redução destas desastres.

Para além dos custos humanos, temos também custos económicos causados pela alta utilização de veículos particulares em cidades. Um estudo feito pela UE em 2016 demonstra:
- Os custos externos totais de Portugal para o transporte rodoviário foram aproximadamente 17 biliões de euros, enquanto que os custos para o transporte ferroviário foram 0.18 biliões. Imagina o dinheiro que poderia ser poupado se a nossa movimentação vossa feita maioritariamente através de comboios, metros e outros meios de transportes similares.
- Fazendo a comparação entre carros e autocarros especificamente em zonas urbanas, tal como o Porto, vemos que os custos totais de atrasos e congestionamentos gerados por carros são de 3.2 biliões de euros e por autocarros/camionetas são de 0.04 biliões. (22) Imagina o tempo que poderia ser poupado pela utilização regular de transportes públicos na cidade.
A Câmara do Porto alocou aproximadamente 27 milhões de euros para o departamento de mobilidade em 2022. Um projecto como o nosso poderia tornar este departamento muito mais eficiente em termos financeiros e reduzir este número. O dinheiro poupado pode então ser investido noutras áreas importantes para melhorar as condições de vida na nossa cidade. (Por exemplo, comparativamente no mesmo ano a Câmara alocou a 2.5 milhões para o departamento de urbanismo. O espaço físico e orçamental aberto pelo nosso projecto na cidade poderia permitir a criação de mais parques e zonas verdes para nós, residentes.) (23)
Um projecto similar ao nosso está em negociação neste momento na cidade de Berlim na Alemanha e foi estimado que a sua implementação resultaria numa poupança de 5 milhões de euros anuais. (24) Infelizmente a nossa iniciativa não tem acesso a dados tão detalhados para a cidade do Porto pelo que não nos é possível chegarmos a um número com igual confiança. Sendo o Porto uma cidade mais pequena que Berlim e com um orçamento inferior, a poupança também o será. Mas temos segurança que continuará a ser um número significativo e que abrirá portas a outros projectos e iniciativas importantes para a nossa cidade. Finalmente, encorajamos a Câmara do Porto que sim tem acesso a toda a informação a fazer os cálculos e implementar o projecto com os recursos políticos e financeiros de que dispõe.
Limitar o aquecimento global requer limitar o total cumulativo de emissões antrópicas globais de CO2 desde o período pré-industrial, ou seja, permanecer dentro de um orçamento total de carbono. (emissões antrópicas = emissões produzidas como resultado da ação humana)
A potencial libertação adicional de carbono do futuro descongelamento do pergelissolo e a libertação de metano das zonas húmidas reduziriam os orçamentos em até 100 GtCO2 ao longo deste século e depois.
Este tipo de poluição é constituído por partículas e gases, entre estes as pequenas partículas (PM) são as mais associadas com danos à saúde. Os meios de transporte rodoviários sozinhos causam 30% das emissões de PM2,5 e 50% de PM0,1.(17)